Como escrever uma narrativa?

19 de março de 2018


Estamos acostumados a escrever apenas dissertação para o vestibular. É sempre preciso treinar a argumentação, a escrita objetiva. Cansamos de ouvir que não podemos nos colocar em primeira pessoa, etc. Mas e quando nos deparamos com propostas de narrativas? Como as que UNICAMP e outros vestibulares trabalham, como fazer um bom texto e dessa vez explorar a subjetividade ausente nas dissertações? Escrever um texto literário que permite a maior elaboração da palavra pode ser um desafio justamente pelo maior preparo dado às dissertações. Então aqui vão algumas dicas de como melhorar a nossa escrita nas narrativas.

EXEMPLO DE TEMA PARA NARRATIVA (UNICAMP): 


A imagem acima foi retirada de uma proposta da UNICAMP, nela era exigida a elaboração de uma narrativa através do tema: ambiente familiar. As instruções pediam que o enredo partisse de uma personagem jovem que passa a morar com os avós e se depara com o conflito entre as gerações distintas.  Para ter acesso a coletânea de textos da proposta, acesse: http://download.uol.com.br/vestibular2/prova/unicamp2010_1afase_redacao.pdf

1. Analise bem o que se pede: as propostas de redação da UNICAMP, seja para texto dissertativo ou para as narrações sempre vêm acompanhadas de instruções bem detalhadas e o seguimento adequado delas conta para a nota. Devemos nos atentar bem ao tema proposto e construir um enredo que esteja dentro do universo de tal tema. No caso do nosso exemplo, a UNICAMP pedia um conflito de gerações entre uma jovem estudante e os avós, logo em algum momento de sua narrativa isso deveria obrigatoriamente aparecer, o conflito.  Portanto, antes de escrever qualquer texto a primeira coisa é analisar o tema e mapear tudo que se relaciona a ele, nesse caso você deveria pensar em: problemas dos idosos com a tecnologia, gírias mal interpretadas pelos avós, a sabedoria dos mais velhos em contraste com o despreparo dos jovens, etc. Esses "links" devem ser feitos antes da elaboração de qualquer texto, pois dessa forma não fugimos do tema na hora da escrita.

2. Para a narrativa o conflito é obrigatório! Do tópico de cima já concluímos que para o texto literário é preciso que haja um conflito interno ou externo, o texto exige que alguma situação conflituosa aconteça. Pense que é como em um filme, há diversas cenas que se desenvolvem através de um problemas central: um acidente, uma mudança de cidade, uma briga, etc. Nem sempre os conflitos precisam ser derivados de ações, eles podem acontecer na cabeça da personagem, um exemplo de conflitos internos está nos contos da autora Clarice Lispector em que fazemos uma viagem nas emoções da personagem. Podemos construir um conflito assim, que se baseie na confusão de pensamentos e sentimentos, mas ele deve ser bem elaborado para que não vire descrição, e deve partir de algum acontecimento. Como no conto "Amor" da Clarice, os conflitos se passam na maior parte do tempo na mente da personagem com suas reflexões, no entanto isso só acontece depois que Ana vê um cego mascando chicletes e tal cena provoca um sentimento inesperado, é a partir disso então que passamos a ler os pensamentos profundos sobre a sua vida, mas para isso alguma situação "diferente" tinha que acontecer.

3. Elaboração das palavras: Para construir um texto subjetivo é preciso uma elaboração maior das palavras. Se na dissertação precisamos de objetividade, nos livrar das polissemias e fazer uso denotativo das palavras, no texto literário fazemos o oposto, usamos as figuras de linguagem como as metáforas, hipérboles, para construir a beleza no texto. Fazemos uso do sentido conotativo e exploramos o poético. Sem esses detalhes não temos uma boa narrativa. 

4. Descrição de espaço/ tempo/ narrador/ personagens: o leitor precisa saber onde se passa a história. No caso do tema da UNICAMP: se passará na casa dos avós? Em uma fazenda? Em um apartamento? Ou as cenas se desenvolvem em outro ambiente? É preciso dessa descrição, bem como do tempo em que se passa, é fato decorrido no presente? Uma lembrança do passado? Além disso, é bom que o leitor conheça o narrador, no caso de narrador-personagem: quantos anos ele tem? como é fisicamente? bem como são as demais personagens. Voltando para a nossa proposta, como são os avós? Não pode faltar esse tipo de informação no texto. No entanto, todas essas descrições devem seguir o tópico 3, ou seja, as descrições não devem ser objetivas: "a avó tinha 68 anos, era muito bonita e tinha cabelos brancos.", mas sempre devemos trabalhar as descrições de modo criativo, por exemplo: "a avó ainda que com seus 68 anos nas costas, aparentava uma postura forte, bonita, como se o tempo não a abalasse, como se o seu cabelo branco de nuvens fosse apenas um detalhe pequeno comparado a um corpo cheio de histórias incríveis". Veja que as informações nas descrições são as mesmas: idade, aspecto físico, mas perceba a forma diferente como isso foi retratado em ambas.

5. Clímax e reflexão final: voltando a comparar nossa narrativa com a estrutura de um filme, sabemos que toda história tem aquele momento de maior pressão, de maior impacto: o clímax, quando o enredo se aproxima de seu desdobramento final. Como em uma música, antes de chegar ao refrão a melodia da canção fica mais intensa, no texto acontece o mesmo movimento. Sem esse impacto não podemos considerar uma boa narrativa. Consecutivamente que o clímax levará ao final de alguma situação, e por sua vez à reflexão. No caso das crônicas é obrigatório uma reflexão final, e todo texto literário tem um encadeamento conclusivo para o enredo. O que tiramos dessa história? Certamente que não é como nas fábulas em que sempre temos a "moral da história". Mas no texto literário o acontecimento leva a um tipo de reflexão final: voltando ao nosso tema, a personagem pode descobrir que conviver com os avós é um meio de aprender mais sobre suas origens e se sentir orgulhosa da trajetória que traça, bem como pode descobrir que através do convívio com os avós ela precisa conquistar mais paciência e compreensão com o próximo, etc. As reflexões são diversas, mas o texto deve conduzir a elas.

 Ideias de elaboração para o texto narrativo:

* Prefira usar metáforas à comparações. A metáfora se caracteriza pela ausência do conectivo "como", exemplo "você é linda como uma flor" (comparação) "você é uma flor" (metáfora). Privilegie, portanto, o uso delas no texto literário. 

* Se o texto for curto não construa muitos cenários. Para o vestibular o espaço da folha não permite uma história muito longa, por isso limite-se a poucos cenários, não mude o personagem de espaço a todo momento, pois cria um enredo mecânico, com muitas ações e pouca elaboração. Se o enredo se passa em uma praia, por exemplo, aproveite o que esse cenário tem a oferecer. 

* Não se restrinja ao senso comum. Não reproduza ideias e pensamentos clichês no texto, seja criativo e surpreenda o leitor. Essa surpresa se elabora através de ideias aprofundadas, o tema deve ser pensado com mais originalidade e não partindo das ideias que já se têm dele. Usando o tema da UNICAMP como referência, seria clichê, por exemplo, dizer que os avós morrem no final e a neta se arrepende dos conflitos, ou se restringir aos problemas que os idosos têm com tecnologia. Essas ideias relacionadas ao tema já são esperadas, não surpreende.

Para finalizar convido vocês a assistirem esse curta chamado "Senza parole" em que uma narrativa se desenvolve  e traz todos os tópicos que comentamos aqui: construção elaborada e surpreendente, clímax, etc. Perceba esses tópicos como se fosse em um texto verbal. 
Como você escreveria esse filme?





Postado por: Carolina Marcondes



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